Kalium - Potássio

 

Fonte image: adaptado

Estudo de caso: potássio | kalium

Artigo fonte:

Pirozzi et al.. Hipocalemia persistente. Relato de caso. Rev Bras Clin Med. São Paulo, 2012 mar-abr;10(2):147-51. http://files.bvs.br/upload/S/1679-1010/2012/v10n2/a2781.pdf

baixe o pdf
 

INTRODUÇÃO

Relato de caso

Paciente do sexo masculino, 34 anos, técnico em enfermagem, com quadro súbito de fraqueza muscular e turvação visual. A avaliação oftalmológica foi normal. Na avaliação clínica foi detectado apenas aumento de pressão arterial (PA 160 x 110 mmHg) e a dosagem sérica de potássio de 1,9 mEq/L. Em outro serviço foram introduzidos fármacos anti-hipertensivos e reposição vigorosa de cloreto de potássio (EV), com grande dificuldade de estabilizar a calemia em valores fisiológicos.

O potássio é um cátion predominantemente intracelular (98%) com concentrações séricas extracelulares normais variando de 3,5 a 5,0 mEq/L1. Seus distúrbios são comuns na prática clínica e a hipocalemia é um achado frequente, principalmente em pacientes internados (em mais de 20% dos casos) podendo ser caracterizada como uma concentração sérica de potássio menor que 3,5 mEq/L2,3. (...) Nos músculos, a hipocalemia provoca hiperpolarização do miócito tornando-o mais refratário à excitação neural e, consequentemente, provoca fadiga, fraqueza muscular, mialgia, dificuldade respiratória e até o íleo paralítico. Nos cardiomiócitos, o mesmo distúrbio leva a um prolongamento na repolarização refletido no eletrocardiograma (ECG) por depressão de ST-T e presença de ondas U e, posteriormente aumento do intervalo QT1,2.

 

Metodologia

§  Leitura da situação-problema e esclarecimento de termos desconhecidos.

§  Identificação do problema proposto pelo enunciado.

§  Discussão dos termos e bases anatômicas e fisiológicas.

§  Resumo das hipóteses.

§  Formulação dos objetivos de aprendizagem. Com base nos conhecimentos prévios, são identificados os assuntos que devem ser estudados para a resolução do problema.

§  Estudo autônomo dos assuntos levantados

 

Estudo dirigido | formulação de questões









O potássio e o corpo humano. 


HIPOCALEMIA

**o potássio é fundamental para estabelecer o potencial de membrana das células excitáveis. Quando o potássio sérico cai, a membrana fica mais difícil de despolarizar, e isso prejudica principalmente músculos e coração.**

Há, porém, um detalhe fisiológico importante: a hipocalemia **não significa simplesmente que "falta potássio dentro da célula"**. O problema inicial é a **redução da concentração de K⁺ no líquido extracelular**, que altera o gradiente eletroquímico através da membrana.

### 1. Começando pelo normal

Nas células musculares e nervosas, existe uma diferença enorme na concentração de potássio:

* **dentro da célula:** muito K⁺;
* **fora da célula:** pouco K⁺.

A membrana celular possui canais de K⁺ e, em repouso, é bastante permeável a esse íon. Como existe muito K⁺ dentro da célula, o K⁺ tende a sair através desses canais.

Essa saída de cargas positivas contribui para deixar o interior da célula **negativo em relação ao exterior**.

Esse é um dos principais componentes do **potencial de membrana de repouso**.

A bomba **Na⁺/K⁺-ATPase** também é fundamental para manter esses gradientes, transportando **3 Na⁺ para fora e 2 K⁺ para dentro** da célula.

---

### 2. O que acontece quando o K⁺ extracelular diminui?

Aqui está o ponto que costuma ser mais difícil para o aluno.

**Normal:**

> Dentro: muito K⁺ →→ Fora: pouco K⁺

Agora imagine que a concentração de K⁺ fora da célula diminua ainda mais:

> Dentro: muito K⁺ →→ Fora: **muito pouco K⁺**

O gradiente químico para a saída de K⁺ fica maior.

Consequentemente, o potencial de equilíbrio do K⁺ torna-se **mais negativo**.

Em termos simples:

**↓ K⁺ extracelular → maior tendência de saída de K⁺ → membrana mais negativa → hiperpolarização.**

E isso tem uma consequência muito importante:

> **fica mais difícil atingir o limiar necessário para gerar um potencial de ação.**

---

### 3. E por que isso causa fraqueza e fadiga muscular?

Para um músculo se contrair, precisamos de uma sequência:

**estímulo → potencial de ação → despolarização da membrana → liberação de Ca²⁺ → contração muscular.**

Na hipocalemia:

**↓ K⁺ extracelular**
**hiperpolarização da membrana**
**maior dificuldade para atingir o limiar**
**menor excitabilidade da fibra muscular**
**menor capacidade de gerar potenciais de ação repetidamente**
**fraqueza muscular e fadiga.**

É por isso que o paciente pode apresentar desde **cansaço e fraqueza** até quadros mais importantes de **paresia ou paralisia**, dependendo da intensidade e da velocidade de instalação da hipocalemia.

---

### 4. Mas por que o coração pode parar?

Essa é a parte mais interessante!

O coração também é formado por células excitáveis. Para que o coração funcione adequadamente, é necessário que os cardiomiócitos consigam:

1. gerar potenciais de ação;
2. conduzir esses potenciais;
3. realizar a despolarização e repolarização de maneira organizada;
4. liberar Ca²⁺;
5. produzir contração;
6. manter um ritmo coordenado.

A hipocalemia altera principalmente os **gradientes de K⁺ e a repolarização cardíaca**.

A redução do K⁺ extracelular aumenta o gradiente para saída de K⁺ e modifica as correntes de potássio responsáveis pela repolarização. O resultado é uma alteração da **excitabilidade e da repolarização dos cardiomiócitos**.

Isso pode provocar alterações no ECG, como:

**onda T diminuída → onda U proeminente → prolongamento aparente do intervalo QT/QU → alterações de condução e arritmias.**

Em hipocalemia importante, podem surgir arritmias potencialmente graves, incluindo **taquicardia ventricular e fibrilação ventricular**, que podem levar à parada cardíaca.


HIPERCALEMIA


No começo, o excesso de K⁺ deixa a célula mais excitável. Porém, se a hipercalemia se torna importante ou persistente, a despolarização contínua faz a célula perder a capacidade de gerar potenciais de ação adequadamente.


Esse detalhe é a chave para entender por que a hipercalemia pode começar com alteração da excitabilidade e terminar em fraqueza muscular, alterações de condução e parada cardíaca.

## 🧠 1. Comece lembrando o normal

Assim como fizemos com a hipocalemia, eu começaria pela distribuição do K⁺:

**Dentro da célula:** muito K⁺
**Fora da célula:** pouco K⁺

Portanto, existe um grande gradiente de concentração.

O K⁺ tende a sair da célula através dos canais de K⁺, levando cargas positivas para fora.

Isso contribui para deixar o interior da célula negativo:

**Potencial de repouso ≈ –70 mV**

Podemos representar:

**Interior da célula:** − − − −
**Exterior:** + + + +

---

# 2. O que acontece na HIPERCALEMIA?

Agora imagine que aumentamos a concentração de K⁺ **fora da célula**.

Antes:

> **Dentro:** muito K⁺ → **Fora:** pouco K⁺

Na hipercalemia:

> **Dentro:** muito K⁺ → **Fora:** mais K⁺

O gradiente de concentração diminui.

Consequentemente, o K⁺ tem **menor tendência de sair da célula**.

E aqui está o ponto fundamental:

**↓ saída de K⁺ → interior da célula fica menos negativo**

Portanto:

> **Hipercalemia → despolarização da membrana.**

Por exemplo, uma célula que normalmente apresenta aproximadamente:

**–70 mV**

pode passar para algo como:

**–60 mV → –50 mV**

dependendo da intensidade da alteração.

---

# ⚡ 3. E aqui vem a parte interessante: inicialmente a célula fica mais excitável

Se o potencial de repouso passa de:

**–70 mV → –60 mV**

a célula está **mais próxima do limiar**.

Imagine que o limiar para gerar um potencial de ação seja aproximadamente:

**–55 mV**

Normal:

**–70 mV → –55 mV**

A célula precisa sofrer uma despolarização de aproximadamente 15 mV.

Na hipercalemia:

**–60 mV → –55 mV**

Agora ela está muito mais próxima do limiar.

Portanto:

> **Hipercalemia leve → despolarização → aproximação do limiar → aumento inicial da excitabilidade.**

Esse é um excelente momento para perguntar aos alunos:

**"Então a hipercalemia deveria fazer o músculo funcionar melhor?"**

E aí vem a segunda parte da história. 😄

---

# 🚨 4. O problema aparece quando a despolarização é intensa ou persistente

Os canais de Na⁺ dependentes de voltagem são fundamentais para o potencial de ação.

Quando a membrana despolariza, esses canais inicialmente **abrem**.

Mas eles possuem um mecanismo de **inativação**.

Se a membrana permanece despolarizada durante muito tempo, uma parte significativa dos canais de Na⁺ permanece **inativada**.

E isso é um problema.

Porque:

**menos canais de Na⁺ disponíveis**


**menor entrada rápida de Na⁺**


**potencial de ação menos eficiente**


**diminuição da excitabilidade e da velocidade de condução.**

Portanto, temos uma sequência aparentemente paradoxal:

### Hipercalemia leve
**↑ K⁺ extracelular**
**despolarização**
**aproximação do limiar**
**maior excitabilidade**
### Hipercalemia importante/persistente
**↑↑ K⁺ extracelular**
**despolarização sustentada**
**inativação dos canais de Na⁺**
**↓ capacidade de gerar e conduzir potenciais de ação**
**fraqueza muscular + alterações da condução cardíaca**

---

# 💪 5. Por que aparece fraqueza muscular?

Para o músculo esquelético contrair, precisamos:

**potencial de ação**
**despolarização da membrana**
**liberação de Ca²⁺**
**interação actina–miosina**
**contração**

Na hipercalemia importante:

**despolarização persistente**
**inativação dos canais de Na⁺**
**dificuldade para gerar potenciais de ação**
**menor capacidade de ativar as fibras musculares**
### **FRAQUEZA MUSCULAR**

Nos casos mais graves, pode ocorrer **paralisia**.

---

# ❤️ 6. E por que a hipercalemia é tão perigosa para o coração?

Aqui está uma das melhores aplicações da fisiologia.

O coração precisa produzir e conduzir potenciais de ação de maneira **organizada e sincronizada**.

A hipercalemia altera profundamente essa atividade elétrica.

À medida que o K⁺ extracelular aumenta, ocorre:

**despolarização da membrana**
**alteração da disponibilidade dos canais de Na⁺**
**redução da velocidade de despolarização**
**redução da velocidade de condução**
**alterações no ECG**
**arritmias potencialmente graves**
**parada cardíaca**

---

# 📈 7. O ECG conta uma história muito interessante


### Hipercalemia inicial

**onda T apiculada ("em tenda")**
### Hipercalemia mais importante

**onda P diminui / pode desaparecer**
**intervalo PR prolonga**
**QRS se alarga**
**QRS + T podem formar o padrão de "onda senoidal"**
### Hipercalemia grave

**arritmias ventriculares → fibrilação ventricular / assistolia**
### **PARADA CARDÍACA**

É justamente essa capacidade de alterar a **condução elétrica cardíaca** que torna a hipercalemia uma emergência potencialmente fatal.

Comentários